Mão Morta no Festival do Silêncio

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Chama-se do silêncio mas homenageia a palavra, seja ela falada ou cantada. Iniciativa de louvar, o Festival do Silêncio trouxe, na sua quarta edição, até à cidade de Lisboa uma mão cheia de poetas, autores e músicos, no único propósito de valorizar a palavra, tantas vezes maltratada. Do evento fizeram parte espetáculos multimédia,  conversas e leituras encenadas, cinema e poesia…e música com uma série de excelentes concertos, o último dos quais encerrou o festival no dia 01 de junho. A tarefa coube a Adolfo Luxúria Canibal e restantes companheiros dos Mão Morta que encheram de palavras poderosas a sala 1 do Cinema São Jorge.

Dividido em duas partes, o espetáculo começou com o poeta Joshua Idehen que em 20 minutos de spoken word nos fez pensar e sorrir…na verdade, Joshua (que se mostrou deveras enamorado por Lisboa e as sua colinas) recitou um conjunto de poemas seus e “emprestados” que focaram temas como o amor ou os ainda recentes tumultos que durante dias incendiaram Londres.  Entusiasmado por estar num espaço “tão grande, o maior onde atuei em spoken word até hoje”, Joshua confessou que vinha preparado para tirar uma fotografia ao público mas…”está escuro e eu não vos vejo”! A verdade é que até podia não ver, mas as palmas ouviu-as de certeza, prova de que todos do lado de cá apreciaram e muito a sua performance em palco.

Breu total e completo antecede a entrada em palco dos Mão Morta. Adolfo (figura principal do coletivo de músicos oriundos de Barga) distingue-se dos companheiros com a sua camisa vermelha. Por detrás deles um cenário onde iam passando 20 imagens de cidade (s), sobre as quais fomos ouvindo a voz rouca e profunda de Adolfo Luxúria Canibal num conjunto de 20 estrofes baseados na poesia e no rico universo de Al Berto, ao qual deram o nome de Bate-Papo.

Sob um impressionante e poderoso jogo de luzes, onde o vermelho imperou durante praticamente toda a atuação, a música tomou o seu lugar, primeiro com “Tu Disseste” (Carícias Malícias, 2003), logo seguida de “Velocidade Escaldante” (Vénus em Chamas, 1994) e “Arrastando o seu Cadáver” (Primavera de Destroços, 2001). Com a sua peculiar maneira de dançar, Adolfo Luxúria Canibal acompanhou quase todas as músicas com uma coreografia ora estranha, ora algo demente, ora peculiar, a mesma que lhe conhecemos desde há décadas, desde aquele primeiro concerto no saudoso Rock Rendez-Vous (é proibido fazer contas aos anos, por favor)…

O quarto tema do alinhamento teve direito a algumas palavras por parte de Adolfo que informou ser “a segunda vez que o tocamos ao vivo, chama-se “A Ver o Mar” e faz parte do quarto volume da coletânea À Sombra de Deus, sobre a qual os jornais de Lisboa não falam porque nós somos de Braga”. Aqui vos confessamos a imensa vontade de falar alto, “Óh Adolfo, não falam eles mas falamos nós” e relembrar a entrevista que lhe fizemos a propósito deste excelente projeto (http://look-mag.com/2012/05/30/a-conversa-com-adolfo-luxuria-canibal-sobre-a-sombra-de-deus-iv/).

O público não encheu o São Jorge como noutras ocasiões em que a banda atuou na mesma sala, mas os que lá estavam, temos a certeza, sentiram fazer parte de um momento especial. A noite prosseguiu com “Escravos do Desejo” (Vénus em Chamas, 1994) com todos já a pedir dança e movimento de corpo ao som da música forte e intensa temperada pela voz de Luxúria…vontade que se acentuou com “Oub’Lá” (Mão Morta, 1988) onde fomos transportados até aos anos 80, época onde a música nacional deu um enorme avanço com o aparecimento de bandas verdadeiramente inovadoras como os Mão Morta que viram a luz do dia quatro anos antes do lançamento do primeiro álbum homónimo.

Sobre a canção seguinte, “Destilo Ódio” (Corações Felpudos, 1990), ouvimos do palco “chama-se ruído branco e há quem faça concertos com isso”! A forte poesia que integra a canção ganhou outra dimensão ali em palco, e nós fomos sugados por ela, impossível desgrudar os olhos da figura impressionante de Adolfo enquanto cantava “Odeio o teu esqueleto ciumento; E os seus ornamentos de suicida. Destilo ódio! Odeio as tuas tesouras perversas. Destilo ódio!”

Com “Novelos de Paixão” regressámos ao presente, pois juntamente com “o Seio Esquerdo de RP” e “Fazer de Morto” foram as visitas da noite ao trabalho mais recente da banda, Pesadelo em Peluche, lançado em 2010. Esta última apresentada no seguimento do desafio de Luxúria ao público para que viesse dançar para a frente de palco, ao que alguém da plateia responde “não nos deixam dançar!” Resposta imediata do vocalista “se não vos deixam dançar podem sempre fazer de morto!” A verdade é que ninguém obedeceu, nem às ordens de quem não autorizava a dança, nem à sugestão de Luxúria Canibal, pois muitos foram os que assistiram ao resto do concerto de pé e sem parar de dançar!

Seguiram-se “Barcelona” (Mutantes S.21, 1992), de cuja interpretação Adolfo saiu verdadeiramente cansado (confissão do próprio), “Vamos Fugir” (Há Já Muito Tempo que Nesta Latrina o Ar se Tornou Irrespirável, 998), anunciada como outra canção sobre fuga, e por último “E Se Depois” (Mão Morta, 1988), canção hino que supostamente iria dar por terminado o concerto. Ninguém se mexeu, ninguém parou de bater palmas, e eles voltaram. O encore desejado revelou-se como um pedaço de energia eletrizante, que deu choque e colocou todos a dançar! “Penso que Penso” e “Cão da Morte” (no final da qual Adolfo se deixa cair literalmente de costas no chão!), ambas do álbum de 2001, Primavera de Destroços, compuseram o trio do encore juntamente com o “Seio Esquerdo de R.P.” (Pesadelo em Peluche, 2010).

Ninguém queria dar por terminada a fabulosa noite proporcionada pelo Festival do Silêncio, durante a qual voltámos a ter os Mão Morta “só para nós”, num espaço e num momento que tão depressa não vamos esquecer. Resultado: um segundo encore, composto apenas por uma música “Primeiro de Novembro” (O.D., Rainha do Rock & Crawl, 1991). “Vamos tocar mais uma e depois do 1.º de Novembro vamos definitivamente para Braga.” E foram, mas para trás deixaram um público satisfeito de largo sorriso no rosto!

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